segunda-feira, 19 de março de 2018

Após a aprendizagem inicial da leitura e escrita...


A sua criança tem algum dos seguintes problemas?
(Does your child have any of the following problems?)

Detesta ler?
(Hate reading?)

Detesta soletrar?
(Hate spelling?)

Lê muito devagar?
(Read very slowly?)

Omite/salta palavras, espaços ou letras?
(Skips Words - Loses Place - Letters Jump?)

Tem dificuldades em analisar palavras?
(Have difficulty sounding out words?)

Tem problemas na fluência e na pronúncia?
(Have fluency and pronunciation problems?)

Tem dificuldades na compreensão?
(Have difficulty with comprehension?)

Cansa-se rapidamente?
(Fatigues quickly?)

Troca letras ou palavras?
(Reverses letters or words?)

Tem dificuldade nas palavras de alta frequência?
(Palavras que aparecem muitas vezes nos textos.)
(Have difficulty with sight words?)

Perde habilidades já aprendidas?
(Loses skills you thought they had already learned?)

Learning Success
Tradução para português de EMC


Então, não fique ansioso/a, fale com alguém que o/a possa aconselhar.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Como pode ser a vida de um aluno disléxico?


UM DIA NA VIDA DE UM ALUNO COM DISLEXIA

Adaptado de “A day in the life of a teen with dyeslexia.”



Para os alunos com dislexia cada aula pode ser uma luta, na medida em que, quase todas as disciplinas dependem da leitura e ortografia. Dislexia pode, assim, levar, também, a problemas sociais, emocionais e comportamentais. Use este guia visual para saber como esta perturbação da aprendizagem específica afeta o quotidiano do seu filho.


Henrique é um aluno de 11 anos. Tem necessidades educativas especiais. A inteligência é uma das suas principais características, mas os problemas de leitura condicionam-lhe o dia-a-dia. Uma simples tarefa, fácil de executar para o comum dos mortais, pode transformar-se num verdadeiro quebra-cabeças para um aluno com dislexia.
Vejamos como é, afinal, um dia típico na vida de Henrique:

Problemas relacionados à dislexia: Baixa autoestima e abandono escolar
6h15

Acorda cedo com o despertador mas, logo desliga o alarme e não quer sair da cama. Depois de tantos comentários sobre o quão lenta e sofrida é a sua leitura, Henrique deixa-se levar pela pressão e prefere nem pensar na escola. Imaginar entrar numa sala de aula é suficiente para o destabilizar. Um dia, chegou a fingir uma dor de estômago para justificar a falta. Não tem dúvidas: os melhores dias são aqueles em que fica em casa, longe do stress que as aulas lhe provocam.

Problemas relacionados à dislexia: Compreensão de leitura e escrita à mão
8h30

Chegou o dia. Henrique não está preparado para a palestra de história.
Tentou terminar os trabalhos de casa, mas as dificuldades na leitura são tão evidentes que apenas conseguiu concluir alguns parágrafos. E, como demorou tanto tempo para ler e perceber cada frase, como sempre, teve dificuldade em entender o texto na sua globalidade.
Não se pode dizer o contrário: Para além de inteligente, Henrique, também, é esforçado! Quer ultrapassar os obstáculos que o impedem de ter sucesso escolar. Nas aulas costuma ouvir atentamente o professor e, ainda que de forma pouco organizada, tenta retirar notas/apontamentos da matéria mais importante, mas não chega. Henrique precisa de acompanhamento especializado para conseguir superar as suas dificuldades. E assim, o teste, quinta-feira, advinha-se um pesadelo.

Problemas relacionados à dislexia: Descodificação e memória de trabalho
10h30

Henrique gosta de matemática, exceto dos problemas. Levam-lhe uma eternidade a ler e compreender. Dificilmente consegue reter e sistematizar o que lê e, assim, como era de esperar, não os consegue resolver, por muito que tente. Geralmente, comete erros simples, por exemplo, como mudar dois números ou misturar a sequência de etapas. Ou seja, a resposta está, quase sempre errada, apesar de até ter adquirido e entendido os conceitos e ter um bom raciocínio lógico-matemático.

Problemas relacionados à dislexia: Reconhecer palavras à vista, construir vocabulário e consciência fonológica
12h30

É difícil para Henrique relaxar durante o almoço. Tem trabalhos de casa para fazer e precisa de ajuda. Sozinho não os consegue fazer. Por isso corre na escola, desenfreado, à procura de uma ajuda-extra dos professores. Aproxima-se o teste de vocabulário de francês e Henrique está preocupado. Por muito que olhe para os flashcards sobre a matéria, parece sempre que os olha pela primeira vez. Infelizmente, um problema, não exclusivo, da disciplina de francês – é transversal às outras. As palavras, simplesmente, não lhe "ficam" na memória!

Problemas relacionados à dislexia: Aprender uma língua estrangeira e evitar tarefas
13h30

A aula de francês é, sem dúvida, das mais difíceis! Se Henrique já tem imensos problemas para ler e escrever em português, mais difícil se torna a tarefa de o fazer num outro idioma/língua, com diferentes sons e regras de ortografia.
O método de ensino do professor deixa Henrique desconfortável e ainda mais inseguro: todos os alunos são incentivados a lerem em voz alta na sala de aula, um de cada vez. E quando Henrique sente que está prestes a ser chamado, inventa uma desculpa qualquer para se ausentar da aula. A maneira mais fácil é dizer que precisa de ir à casa de banho mas já não resulta, a desculpa está gasta. Henrique sempre preferiu refugiar-se num local qualquer, em vez de mostrar fragilidades diante da turma e, eventualmente, dizer algo impróprio ao professor e ter uma falta disciplinar.

Problemas relacionados à dislexia: Ansiedade e dificuldade para ler música
14h30

O coro é a única coisa que Henrique gosta da escola. A leitura da música é difícil, mas, ao contrário das outras disciplinas, pode sempre aprender ouvindo-as. E é fantástico quando as pessoas elogiam a voz bonita que tem. Henrique preocupa-se que, se tiver de faltar ao coro por causa de uma outra aula qualquer, possa não ter agenda para a substituir. Dá imensa importância à participação no coro.

Problemas relacionados à dislexia: Descodificação, ortografia e interação
16h30

As mensagens de texto são stressantes para Henrique. Demorou muito tempo para descobrir as abreviaturas usadas pelos amigos para simplificar determinadas palavras. As dificuldades que sente ao nível da leitura e da ortografia tornam difícil, quase impossível, fazer parte das conversas de grupo.

Problemas relacionados à dislexia: Escrita, ortografia, revisão
20h15

Os pais de Henrique continuam a pressioná-lo para terminar o estudo. A capacidade de soletração de Henrique é bastante pobre e, por vezes, a família, amigos e colegas não percebem a mensagem que pretende transmitir! A correção, também se torna difícil. Henrique não tem consciência dos erros que comete. Por isso, depende sempre da supervisão dos pais em casa. Às vezes, dizem que se trata de preguiça, mas não é. Henrique demora muito mais tempo a fazer um trabalho de casa do que um estudante sem dislexia.

Problemas relacionados à dislexia: Stress generalizado
22h15

Já é tarde e Henrique está cansado. Antes de dormir precisa de relaxar. Jogar na playstation é o passatempo favorito. Assim que entra no mundo virtual, Henrique torna-se igual a outra criança qualquer: esquece-se da dislexia e de todos os problemas que lhe estão associados. Hora de dormir. Amanhã outro longo dia pela frente.

Sobre a Dislexia

A dislexia é uma perturbação da aprendizagem específica com défice na leitura, normalmente associada a alterações neurodesenvolvimentais. Não significa falta de inteligência, nem dificuldades de visão. É uma disfunção neurológica que torna difícil aprender a ler com precisão e fluência. A questão central envolve a compreensão de como os sons nas palavras são representados por letras. É comum para um aluno com dislexia apresentar dificuldades na compreensão da leitura, erros ortográficos, dificuldades na estrutura frásica e na organização de ideias.
As crianças não superam a dislexia, aprendem mecanismos para lidar com ela.
As suas dificuldades com a leitura podem afetá-las socialmente, emocionalmente e verbalmente. É comum que evitem ler em voz alta e não saibam responder à pergunta do professor.
Pais e professores, não raras vezes, interpretam mal os sinais da dislexia. Confundem-nos, por exemplo, com preguiça. Por vezes, parece que os alunos não se esforçam o suficiente para obter melhores resultados escolares. Há, no entanto, fórmulas/estratégias de sucesso para fazer face à dislexia: abordagens de ensino adequadas; intervenções terapêuticas específicas, regulares, com técnicos especializados com o objetivo de reeducar as áreas subdesenvolvidas e com necessidade de desenvolvimento.
O programa de reeducação da dislexia permite superar os desafios de leitura e prosperar ao nível do aproveitamento escolar e da própria vida pessoal.

Como ajudar?

- Fale com a escola do seu filho sobre os métodos de ensino-aprendizagem  estruturados e multissensoriais utilizados no ensino da leitura e da escrita. Esta abordagem de ensino é projetada/concebida para envolver as crianças através da visão, audição, movimento e toque.
O uso dessas diferentes áreas pode ajudá-los a associar sons a letras e, assim, aprender a descodificar palavras escritas.

- Explore alguns exercícios que ajudem os alunos a aprender e mostrar o que sabem. Por exemplo, ter um bloco de notas, fazer um relatório oral ou um projeto de vídeo, em vez de uma tarefa escrita. Solicitar a leitura na sala de aula em voz alta não é boa solução.

- As ferramentas tecnológicas podem ajudar os alunos com dislexia através do estímulo para a descoberta de novas palavras e ideias. Livros de áudio, aplicativos de texto para fala e livros didáticos digitais podem ajudar o seu filho a ouvir e entender melhor o que se pretende.

-Procure o Techfinder da Understanding. Estas aplicações, já analisadas por especialistas, podem ajudar a superar alguns problemas de leitura.

- Estimule o interesse do seu filho para a leitura. Livros de banda desenhada, desporto, moda e culinária são sempre boas formas para despertar vontade de ler. Procure livros sobre grandes temas atuais próprios para a idade do seu filho, desde que escritos de forma simples e facilmente entendível.

- Enfatize os pontos fortes de seu filho. Use desportos, passatempos e outras atividades para ajudar o seu filho a ficar motivado na escola. Outra maneira de ajudar a aumentar a autoestima é partilhar histórias de sucesso sobre pessoas com dislexia.

- Pratique a autodefesa. Os alunos mais resolvidos com o seu problema de dislexia, costumam dar o primeiro passo e falar sobre as dificuldades que sentem ao nível da leitura. Não é fácil, mas é importante que saibam procurar ajuda sempre que dela precisem.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

José Morais - A leitura


Esta entrevista, dada à revista online brasileira Aprendaki, encontra-se escrita no português do Brasil.

José Morais é professor de psicolinguística e diretor da Unidade de Pesquisa em Neurociências Cognitivas, da Universidade Livre de Bruxelas, presidente do Comitê das Ciências Psicológicas da Academia Real da Bélgica e membro do comitê científico do Observatório Nacional da Leitura em França. Autor de "A arte de ler" (publicado em França e traduzido no Brasil, Portugal e Espanha), escreveu inúmeros artigos científicos sobre a aprendizagem da leitura e foi corredator do relatório "Alfabetização infantil: Os novos caminhos" (Senado Federal, Brasília, 2003). Deixou Portugal quando tinha 25 anos (1968) devido à situação política da época. Desde, então, mora na Bélgica onde se especializou em psicologia. Nesta entrevista o pesquisador comenta as características do leitor hábil, as razões que impedem um indivíduo de sê-lo e fala, ainda da pesquisa psicolinguística na Europa e no Brasil. O pesquisador esteve por um ano e meio na Universidade Federal de Santa Catarina, estudando o tema com pesquisadores
brasileiros.

Aprendaki – Sua pesquisa se situa na aprendizagem?

José Morais  Minha pesquisa iniciou-se com o estudo dos hemisférios do cérebro. Fiz minha tese de doutorado sobre o assunto. Depois disso, interessei-me pela leitura e em particular, pelo aprendizado da leitura. E no caso da leitura, me interessei pelas habilidades fonológicas. O problema da aprendizagem da leitura vai para além das habilidades fonológicas. Em relação com a leitura, estudei a percepção da fala e a maneira como as representações ortográficas que nós temos podem influenciar a percepção da fala. Estudamos também a percepção da música.

Aprendaki – A partir de seus 30 anos de pesquisa sobre o assunto na Europa e conhecendo um pouco do Brasil, como comparar o leitor hábil de lá e daqui?

José Morais  No Brasil, há pesquisadores trabalhando na mesma linha e em alguns até trabalharam comigo. A razão pela qual estive por um ano e meio na Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis, é que eu já colaborava com a Leonor Cabral. Temos experimentos e artigos juntos. Eu diria que esses problemas que estudamos na Europa, seja em Portugal, Bélgica ou Espanha, são problemas universais. No Brasil, eles se colocam também. A Universidade Federal de Belo Horizonte trabalha também muito bem nessa linha. Eu diria que deveria haver mais, porque no Brasil há uma espécie de imperialismo de uma corrente que se chama construtivista e que tem pouco conhecimento científico. Na verdade, se funda em teorias que foram importantes numa época, mas que atualmente perderam a importância porque o trabalho experimental mostrou que na realidade não tem essa importância que se julgava. Eu acredito nos fatos, nos dados experimentais quando são bem construídos, e portanto, bem analisados. Eu desconfio das afirmações baseadas em impressões e intuição. Toda as nossas intuições devem passar por um exame experimental. A partir de uma hipótese, criamos uma situação que vai nos permitir dizer se a hipótese é boa ou não. A psicolinguística, atualmente se desenvolveu muito, justamente porque ela seguiu esse método científico. E os resultados disponíveis permitem fazer pensar que essa corrente do construtivismo que é baseada nas ideias do Piaget – que foi um grande psicólogo do desenvolvimento, mas trabalhou em uma outra época e as coisas não param, atualmente não tem base científica - aquilo que dizemos hoje, provavelmente, será dito diferente ou até melhor no futuro, ou quem sabe até desdito.

Aprendaki – O que define o leitor hábil?

José Morais  Chamamos de leitor hábil, em geral, o leitor adulto, normal. Quer dizer, que lê com fluência. Não é que seja um mestre em leitura, como dizemos para um mestre em xadrez. Ele não tem nada em particular. Todos somos leitores hábeis no sentido que não temos dificuldade em ler, que lemos rapidamente com fluência, lemos bem, identificamos bem as palavras, extraímos bem o significado dos textos, construímos uma boa ideia do que está contido nos textos. Isso é um leitor hábil.

Aprendaki – O que impede a existência do leitor hábil?

José Morais  Há muitas razões para que o individuo não seja um leitor hábil. A primeira razão pode ser que ele não teve a oportunidade de aprender a ler, apesar de ter as capacidades cognitivas. Segunda razão pode estar relacionada às dificuldades especificas, particulares, como por exemplo, dificuldades fonológicas, o que compromete o aprendizado da leitura. Outra razão é não ter tido condições sociais, socioculturais que lhe permitisse fazer essa aprendizagem. Pode também ter razões sensoriais no sentido de que um surdo terá mais dificuldades. Mesmo um cego pode se tornar um ótimo leitor hábil, mas com a leitura braile. Pode ainda haver razões afetivas. Há crianças que tem problemas afetivos graves que não se identificaram com os pais-    -leitores ou outros parentes leitores e que acham que detestam ler. Isso acontece por falta de identificação ou de má-identificação. E finalmente, pode haver aqueles que têm lesões cerebrais ou que vierem a ter alguma lesão cerebral, o que vai afetar na sua situação de leitor hábil. Tem havido estudos com pacientes que sofreram lesões, em classificados e as categorias em que são classificados estão correlacionadas com as estruturas.

Aprendaki – Que metodologias podem ajudar no desenvolvimento do leitor hábil?


José Morais  Na aprendizagem da leitura, tem se estudado as condições, as capacidades cognitivas, perceptivas que permitem a alguém se tornar um leitor hábil. Além disso, tem se feito estudos de avaliação, dos resultados obtidos pelos alunos que aprendem de acordo com métodos de ensino diferente. Houve outros estudos, em que em pequena escala, se faz treino das crianças que estão aprendendo a ler ou que estão com dificuldades e durante algumas semanas, até meses, vai se submetendo-as a sessões de treino. Essas crianças que tiveram esse treino são comparadas com outros tipos de treino. O grupo de crianças são os mais semelhantes possíveis, como sexo, idade, para que se possa comparar e ter a certeza que se há uma diferença depois, é devido àquela diferença de treino que elas tiveram. Os resultados mais sólidos para falar sobre as diferenças dos métodos é justamente esse tipo de estudo. O trabalho tem de ser longitudinal no sentido de averiguar todo o processo, o que exige disposição das equipes e apoio da escola. E ainda mais: exige meios para se levar essa pesquisa por um longo tempo. Há resultados muito interessantes.